sexta-feira, 13 de março de 2026

Tipografia de Allenheim, 35/05/1184

Os continentes de Einari encontram-se às portas de um novo colapso. A paz, há muito convertida em lembrança, agora se dissolve por completo entre as garras da guerra e os murmúrios do sobrenatural. De nossas oficinas em Allenheim, trazemos relatos de um mundo que parece sangrar em todos os horizontes.

As terras de Durukan, outrora orgulho dos povos do deserto, renderam-se enfim à Aliança Divergente. Tropas aliancistas cruzaram o Mar de Ariavera e foram vistas marchando sob o estandarte do Anel Divergente em direção a Alira, capital imperial. As fronteiras do Império começam a ruir. A guerra, que antes se travava por meio de espiões, diplomatas e sabotagens, tornou-se agora uma ferida aberta.

Entretanto, o conflito não é o único flagelo de nosso tempo. De Paloo, a pérola mercantil do nosso noroeste, surge um horror de natureza arcana. A magia aberrante que antes parecia confinada à enorme cratera agora se alastra em Areth. O governo arethiano reagiu com desespero: fechou suas fronteiras e declarou ruptura com a Aliança Divergente, jurando proteger o próprio povo da corrupção mágica que se espalha como um veneno silencioso. Habitantes da região relatam distorções na luz, ecos de vozes humanas dentro de reflexos e, em noites mais densas, figuras que se movem dentro dos espelhos, observando o mundo sem jamais tocá-lo.

Das terras anãs chega outro tipo de ameaça. O chamado Rei Gárgula, figura envolta em mito e metal, ergueu um exército de golens e lançou uma campanha devastadora sobre as cidades anãs de Ser Dvetrik. As fortalezas de Kovkhesh e Hurnogar foram as primeiras a cair, e rumores indicam que fazem escavações em seus salões mais profundos.

No coração industrial de Nystad, o que se ergueu não foi um exército, mas uma revolução. A Liga de Ferro, sustentada pelos Espinhos da Rosa, levantou o povo contra o regime das corporações, declarando o fim da tirania econômica. As Empresas Glensk, em desespero, buscam apoio na clandestina Sombra de Telforte, e fala-se em contratos que misturam sangue e fumaça. O céu sobre Nystad arde de fuligem e promessas, e cada chaminé parece uma lança voltada contra o próprio futuro.

A instabilidade não se limita ao mundo físico. Em Anderbergen, uma chuva de sangue caiu durante três dias inteiros. Nenhum estudioso foi capaz de determinar sua origem, e os clérigos afirmam que o fenômeno não se deve a qualquer divindade conhecida. Em Jardim de Yvor, o Sol não brilhou por uma semana. Os campos morreram, e com eles, a fé dos camponeses. No Mar Ariavera, denso e cintilante nevoeiro cobre as águas, engolindo navios inteiros. Os poucos sobreviventes descrevem ter visto reflexos de si mesmos dentro das névoas — versões distorcidas, que lhes falavam com vozes invertidas.

Enquanto isso, no fronte ocidental, a guerra entre Welphis Nyro e Nova Cavale torna-se cada vez mais brutal. As forças élficas de Nyro, dotadas de magia ancestral e estratégia implacável, parecem dominar o conflito após a sangrenta Batalha das Sete Lanças. Entre os escombros, o pequeno reino de Rys Mydila ao norte proclamou independência, alegando neutralidade. Contudo, para os que conhecem a história, é evidente que neutralidade é apenas outro nome para medo.

Relatos alarmantes também chegam de Bergen, onde médicos imperiais confirmaram o retorno de uma doença semelhante à temida Praga da Bruxa, supostamente erradicada há duas décadas em Cheaton. As vítimas apresentam cristalização parcial da pele, lapsos de memória e perda progressiva da identidade. Alguns dizem que o corpo se transforma antes da mente — outros, que o espírito parte antes da carne. A população apelidou o surto de “Segunda Maldição”, e as autoridades, incapazes de explicar o fenômeno, limitam-se a ordenar quarentenas e queimar os mortos.

Há ainda notícias de forças sem bandeira: grupos paramilitares surgem nos campos e fronteiras, combatendo ora um lado, ora outro. Testemunhas afirmam que tais soldados não sangram como homens e que, ao morrer, o ar se distorce em volta de seus corpos. Alguns dizem que são criações alquímicas, outros que são ecos de outro plano. Nenhum deles fala, e todos desaparecem com a mesma facilidade com que surgem.

Em meio a tamanha desordem, Allenheim mantém sua pena erguida, registrando um mundo que parece esquecido pelos deuses. Enquanto as chamas de guerra consomem as fronteiras e a realidade se desfaz nos limites do compreensível, resta-nos apenas a palavra — e talvez o consolo de que, quando a última espada cair, alguém ainda conte o que restou.

Que os deuses guardem os que escrevem, e os que sobrevivem.


Distribuído pela Tipografia de Allenheim.

 “Se a verdade queima, queimar é nosso dever.”

 

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